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Sabe-se que, para a maior parte dos linguistas, não existe isso de falar errado: todo o mundo fala certo.


MUITA GENTE torce o nariz quando um chatola, como eu, começa a reclamar dos erros de português que se cometem nos jornais e na televisão. Desses, muitos dos que os cometem são profissionais, mas estão pouco ligando para o que consideramos escrever e falar errado.
Sabe-se que, para a maioria dos linguistas, não existe isso de falar errado: todo o mundo fala certo. Admitem existir uma \"norma culta\", que obedece às regras gramaticais, mas violá-las não é propriamente errar. Ouvi de um deles que está tão certo dizer \"pobrema\" como \"problema\". Obtuso como sou, tenho dificuldade de entender por que eles mesmos vivem escrevendo livros e colunas em jornais, ensinando como se deve escrever. Ora, se não existe falar errado, por que ensinar?
Não deve o leitor concluir daí que sou aquele morrinha que vive catando os deslizes de cada um, mesmo porque não posso me considerar um grande conhecedor da língua. Gosto dela, prezo-a ou, melhor dizendo, considero-a uma das extraordinárias criações do gênio humano. Não é maravilhoso imaginar que, muito antes de surgirem os gramáticos, nossos ancestrais já falavam obedecendo às normas que tornaram o idioma meio de comunicação entre as pessoas e de invenção do nosso mundo cultural?
Pense bem nesta maravilha: a palavra \"este\" indica algo que está perto de mim; \"esse\", o que está perto de você; e \"aquele\", o que está longe de nós dois. Eis a linguagem expressando as relações reais do sujeito e das coisas do mundo. Não obstante, todos os locutores de rádio e televisão, como a maioria dos jornalistas, referindo-se ao que está perto de si, usam \"esse\" em lugar de \"este\". E isso é hoje tão frequente que já nem se repara.

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Escrito por:

Maria Antônia B.
professora secundária
quinta, 23 de junho de 2011 - 20:51
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Ninguém vai morrer por isso, mas não deixa de ser preocupante observar as pessoas deformarem e empobrecerem a língua, usando, por exemplo, \"sobre\" como regência de quase todos os verbos.
Em vez de \"comentou os fatos\" dizem \"comentou sobre os fatos\"; em vez de \"quando falou do problema\", dizem \"quando falou sobre o problema\"; em vez de \"alertado do ataque\", dizem \"alertado sobre o ataque\", e por aí vão.
Em certas frases, o uso de \"sobre\" chega ao limite do desatino: \"o deputado aguarda o desmentido sobre a denúncia\", quando seria muito mais simples e elegante dizer \"aguarda o desmentido da denúncia\". Vá você, agora, explicar como surgiu essa mania do sobre, que espero seja apenas uma mania, como outras que surgiram e se foram.
Lembram-se da época em que todos usavam a expressão \"a nível de\"? Servia para qualquer coisa,
como ouvi um entrevistado afirmar que, \"a nível de ração para porcos, o melhor seria...\". Felizmente, essa mania passou, o que me faz crer que a língua termina por excluir de si as excrescências que nela se introduzem. Mas parece que nem sempre, porque, às vezes, o mau uso se generaliza e até mesmo se oficializa.
Existe coisa mais descabida do que chamar de \"sambódromo\" uma passarela para desfile de escolas de samba? Em grego, \"-dromo\" quer dizer \"ação de correr, lugar de corrida\", daí as palavras autódromo e hipódromo. É certo que, às vezes, durante o desfile, a escola se atrasa e é obrigada a correr para não perder pontos, mas não se desloca com a velocidade de um cavalo ou de um carro de Fórmula 1.

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Escrito por:

Maria Antônia B.
professora secundária
quinta, 23 de junho de 2011 - 20:54
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Muitas vezes, à irreverência junta-se a ignorância, a pouca leitura dos bons escritores. Não é que tenhamos de escrever como escrevia Camões, mas o conhecimento do idioma, em seus diferentes momentos históricos e em suas mudanças, ajuda-nos a preservar a língua no que tem de essencial como também a transformá-la sem lhe trair a natureza. É essa ignorância que leva alguns redatores de televisão a substituir \"risco de vida\" por \"risco de morte\", achando que esta é a expressão correta. Ganha-se em obviedade e perde-se em elegância.
Já mencionei aqui, noutra ocasião, a tal lei da termodinâmica, segundo a qual os sistemas tendem à desordem. Sendo a língua um sistema, está sujeita a desorganizar-se, como o atestam os exemplos citados, tanto mais hoje em dia, quando a TV induz milhões de pessoas a falar errado. Essa mesma TV que poderia se tornar um instrumento decisivo na luta contra a entropia. Ou será que escrever certo é elitismo?


Ferreira Gullar.

Escrito por:

Maria Antônia B.
professora secundária
quinta, 23 de junho de 2011 - 20:55
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