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EX-ZÉCUTIVO

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Um ex-diretor de multinacional, que pediu para não ser identificado, leu a crônica e escreveu:

Foi isso que me aconteceu — a transmutação de executivo para ex-Zécutivo — foi bem isso mesmo, uma transmutação. Bem na linha dos alquimistas, que tentavam transmutar metal comum em ouro, aconteceu comigo de transformar-me noutro indivíduo.

Não em um indivíduo-ouro, que ainda estou a anos-luz disso, mas certamente noutro tipo de pessoa — mais consciente de suas deficiências; mais lúcida quanto ao seu significado no mundo, longe daquela prepotência antiga, mais capaz de ser efetivamente útil — mesmo que ainda não o esteja sendo a pleno potencial — mais, muito mais humilde e, por conseqüência desse último ponto, envergonhado das atitudes e comportamentos de antes. Se eu fosse meu funcionário, nos velhos tempos, teria me mandado à @#$&%, já reconheci para alguns ex-colegas (ou ex-vítimas, como preferir).

O afastamento dos pseudo-amigos foi motivo de sofrimento e angústia num primeiro momento. Hoje, é motivo de alívio, como se perigos ocultos tivessem se distanciado. Em contrapartida, a identificação dos "amigos de fé", aqueles com quem se pode contar, é motivo de alegria e novas certezas.

A mordida da "pobreza" (não chega a tanto, longe disso, mas financeiramente minha situação é muito diferente do que era — tenho o suficiente para viver com dignidade, enquanto antes superabundava o excesso) me forçou a um reajuste nos padrões de consumo, priorizando o que realmente importa e o resto, se sobrar... ótimo! Posicionou-me mais próximo da maioria esmagadora das pessoas que me cercam, e desinflou minha bola egoísta e vaidosa. Doeu? Claro, mas não me matou e me fez mais humano.

Ainda sinto falta da vida de antes — o carrão totalmente bancado pela empresa, a moradia, a comilança, as viagens, os hotéis de primeira, e o puxa-saquismo dos da equipe, os salamaleques dos fornecedores, os happy-hours, os tapetes macios, o ar-condicionado dos escritórios, e vai por aí afora
http://www.mariopersona.com.br/blog/archives/00000136.htm

Oi Zé. Doutor José?! Deixe disso, cara, hoje vou tratá-lo de Zé
mesmo, pois um dia você foi só isso. Quero falar com você. Pode me
dar cinco minutos? Dois? Sei que não tem tempo, que está correndo
feito louco, mas o que quero dizer é importante para você não ficar
isso mesmo - louco - quando a correria acabar.

Verdade, a correria acaba. Nada dura para sempre. Quantas vezes
nos últimos dias você ouviu a frase
"Não trabalha mais aqui"* ao
ligar para alguém? Antigamente não tinha disso, né? Pois é, novos
tempos. Seja humilde. Muito do que você pensa que tem não é seu.

Sabe o Júnior, aquele cheio de MBA disso e MBA daquilo, que fala
até mandarim? Olha, Zé, é melhor você emagrecer que seu paletó vai
para ele. Você já foi o rei da cocada preta, hoje não é mais. Isso
mudou! Deu cem dias sem resultados e vai ter alguém atendendo seu
telefone e dizendo: "Não trabalha mais aqui".

Tudo bem que você vai sair como quem sai e não como quem é saído.
Executivos são jogados na rua com tapete vermelho, até para
resguardar a imagem da empresa. Vão dizer que saiu para desenvolver
projetos próprios - procurar emprego -, buscar novos desafios -
pesquisar nos classificados - e se dedicar mais à família - viver
às custas da mulher.


Por isso, comece a baixar a bola porque ela é emprestada. Dirija
devagar o seu andor, porque você é de barro. Pode nem ser você quem
está na reta, mas seu patrão. Empresários também são demitidos pelo
mercado. Quando jovem, negociei com um empresário a renovação do
aluguel de um imóvel seu, ocupado pelo banco para o qual eu
trabalhava. Muito dinheiro.

Fumando charuto e entediado com a negociação na enorme mesa da
enorme sala no enorme prédio de sua enorme empresa, baforou a
conclusão nada humilde:

   Vá lá, fica por isso mesmo. Gasto isso num final de semana só de
combustível para meu iate.


Na certa também era enorme e devia beber muito. De tudo o que
tinha, não restou nem iate, nem empresa, nem charuto. Só fumaça. Os
tempos são outros, por isso seja humilde, Zé. Fuja do perfil do
executivo que vi jogando golfe em um evento que participei.
Prepotente, altivo, desses que culpam tudo e todos por seu próprio
fracasso.
Chamava a atenção com seus chiliques, lançando
impropérios contra a grama e culpando-a por seus erros no taco.
Isso foi há uns dois anos. Não sei se comeu grama
melhor desde então.

É provável que você não se aposente como executivo. Pouca gente
vai conseguir. Acostume-se com a idéia de não estar no próximo
congresso para ver o Peter Drucker e outros gurus. Ele passou e
você um dia vai passar. Por isso, seja humilde.

Aprenda desde já a viver como um simples mortal - pegar fila em
banco, andar de ônibus, comer pastel de feira. Pode não ter o
glamour com o qual está acostumado, mas é menos estressante do que
a vida que você leva agora. Por sinal, lembre-se de deixar o
glamour na portaria junto com o crachá. Pertence à empresa.

Não se iluda com sua rede de relacionamentos. Muitos são amigos
apenas da donzela que viaja de Zepelim. Quando o balão se vai você
volta a ser Geni. Para outros, daquela gaveta cheia de cartões de
executivos que colecionou em eventos, você pode até ligar. "Não
trabalha mais aqui".


Comece a desenvolver seu "Plano B" desde já, pois vai precisar
dele. Pode virar consultor ou até palestrante. Você não imagina o
currículo de pessoas que me procuram atrás de dicas. Fico sem
acreditar que tenha algo a ensinar para pessoas com uma bagagem tão
maior que a minha.

Existe algo que saiba fazer? Sei lá, cozinhar, costurar, fazer
contas. Pode precisar, quando abrir seu restaurante por quilo, sua
confecção de biquínis ou para fazer em casa a contabilidade de seus
novos clientes. Tudo bem, pode se apresentar como "chef", "designer
de moda" ou fazer a declaração do imposto de renda dos amigos em
"home-office", se quiser acrescentar glamour às suas novas
atividades. Mas se não souber fazer nada, seja humilde e volte a
estudar.


Não tenho mais dicas para dar. Ah, sim! Mais uma: seja humilde. Eu
já disse? Tudo bem, é a idade. Por falar nisso, qual é a sua? Sabe
que isso influi, não sabe? Pois é. Já que falei, por falar em
humildade, conheço empresários e executivos que já trabalham assim.
Durante o almoço em um evento, o dono do grupo de indústrias que me
contratou interrompeu o que estava fazendo para me cumprimentar.
Estava servindo as mesas.

Outro, presidente de uma multinacional, agarrou minha mala e
carregou-a até meu carro no estacionamento do hotel, diante dos
olhares atônitos dos que seguem suas ordens no dia-a-dia.
Executivos malas vão desaparecer. Os que não têm vergonha de
carregá-las irão sobreviver. Portanto, seja humilde. Eu sei, eu já
disse.


   --
Mario Persona www.mariopersona.com.br é palestrante, consultor e
autor de Marketing Tutti-Frutti e Marketing de Gente.

Escrito por:

alo a.
Diretor da Mario Persona Comunicação e Marketing
terça, 19 de outubro de 2010 - 21:11
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